Ela olhou para trás e viu a porta bater. Sentiu como se um fio gelado passasse por dentro de sua espinha; tremeu. Deveria ter olhado pouco antes de ele sair? Como se aquela fosse a última vez? Seria aquela a última vez?
Ela voltou o olhar à revista que estava aberta à sua frente. Meneou a cabeça, sentiu o estômago torcer, a garganta, trancar. Será que ele havia olhado para ela antes de sair? No que ele pensou? Sim, porque ele pensou em alguma coisa. Impossível não pensar...
Ela havia sido fria. Fria, cruel, extremamente desprovida da exaltação que lhe era inerente. Não precisava ser assim, não queria. Mas como iria se defender se não o fizesse? Reagiu mal, bem mal. Sabia disso. Ela só o ignorava porque ele era incapaz de reconhecer sua tristeza, ou de entendê-la.
Ela pensava e lia a revista. As palavras, as linhas, os parágafos, pareciam surgir de acordo com seus pensamentos, como se estes tivessem sido traçados previamente por algum jornalista. Percebeu que não conseguia se concentrar se a cabeça não descansasse. Não fazia ideia do que havia lido nos últimos 20 minutos. Fechou a revista e se levantou.
Ela caminhou. Sentiu os pés descalços no chão de taco, meio geladinho, meio confortante. Como um abraço de verdade, um carinho que relaxa. Recordou-se da última vez em que ele a havia abraçado com força, do último momento em que se sentiu protegida, amada. Foi difícil buscar na lembrança, parece que eles estavam distantes há tanto tempo...
Ela se jogou no sofá e arrumou as almofadas do jeito que fazia todas as vezes que desejava que o mundo a esquecesse. Sentiu que os únicos braços que poderiam ampará-la eram os do sofá. Ali permaneceu, com a cara enfiada na montanha de almofadas. E quase dormiu.
Ela despertou com o barulho da porta se abrindo. Era ele. Voltara com uma garrafa de vinho e o almoço comprado, como combinado. Ela demorou a levantar, ele pensou que estava cansada. Ela não tinha muito apetite, ela achava que estava fazendo regime. Ela não o olhava diretamente, ele achou que era pelos olhos inchados. Ele não perguntou, ela também não. Mesa posta, ela foi comer com a certeza de que algo havia se transformado. Ela.
24/11/2010
19/11/2010
Meu mundo em perigo
Passar uns dias num hotelzinho meia bomba no centro para fugir e esquecer os problemas, mesmo sabendo que eles não serão esquecidos. É algo que mais ou menos 99% das pessoas gostariam de fazer. Clicar no "reiniciar", fazer o que o tempo mandar, colocar a cara ao vento livre de preconceitos, fingir ser quem não é ou ser você mesmo com o máximo de autenticidade.
Chorar, gritar, esquecer. Dormir sem hora para acordar. Confiar naquele que mal conhece, esquecer aqueles que te conhecem bem.
Meu mundo em perigo, de José Eduardo Belmonte e que estreia no dia 10 de dezembro, é um pouco isso. É o mesmo diretor de Se nada mais der certo, PUTA filmaço. O novo longa segue a mesma linha "tragédia humana". Não chega a ser superior ao anterior, mas, ainda assim, muito bom.

O enredo dá uma forçadinha, mas é tudo muito bem feito, pensado. As falas são densas, cheias de significados. A trilha se mistura aos diálogos, a película, a retratos. A concepção estética casa ao tormento das personagens, nada é muito colorido, apenas as lembranças – saturadas. É tudo muito dolorido, sofrido. As lágrimas são de desespero, um pedido de socorro.
É a história de um homem perturbado, que acaba de perder a guarda do filho e atropela e mata um sujeito. O homem, Elias, é um fotógrafo (Eucir de Souza). A vítima, pai de Fito (Milhem Cortaz), que fica inconsolável e jura vingança. As atuações são ótimas.
Meu mundo em perigo ganhou os prêmios de Melhor Filme segundo a Crítica e Melhor Ator no Festival de Brasília de 2007. Demorou, mas agora ele veio.
Chorar, gritar, esquecer. Dormir sem hora para acordar. Confiar naquele que mal conhece, esquecer aqueles que te conhecem bem.
Meu mundo em perigo, de José Eduardo Belmonte e que estreia no dia 10 de dezembro, é um pouco isso. É o mesmo diretor de Se nada mais der certo, PUTA filmaço. O novo longa segue a mesma linha "tragédia humana". Não chega a ser superior ao anterior, mas, ainda assim, muito bom.

O enredo dá uma forçadinha, mas é tudo muito bem feito, pensado. As falas são densas, cheias de significados. A trilha se mistura aos diálogos, a película, a retratos. A concepção estética casa ao tormento das personagens, nada é muito colorido, apenas as lembranças – saturadas. É tudo muito dolorido, sofrido. As lágrimas são de desespero, um pedido de socorro.
É a história de um homem perturbado, que acaba de perder a guarda do filho e atropela e mata um sujeito. O homem, Elias, é um fotógrafo (Eucir de Souza). A vítima, pai de Fito (Milhem Cortaz), que fica inconsolável e jura vingança. As atuações são ótimas.
Meu mundo em perigo ganhou os prêmios de Melhor Filme segundo a Crítica e Melhor Ator no Festival de Brasília de 2007. Demorou, mas agora ele veio.
18/11/2010
Jesus me abane!!
É foda quando você tem um blog e as pessoas que mais chegam nele estão procurando por "Casas da Banha" e "monstro do lago Ness".
Frustacías.
Frustacías.
Combo 3-D, não!
Eu recebo várias promoções no meu email do Hotmail. Americanas, Submarino, Fast Shop, Livraria Cultura... um sem fim de malas diretas contemporâneas-virtuais. A Fast Shop anda me enviando promos espetaculares de combos: TV 3-D + PlayStation + kit 3-D: transmissor, óculos 3-D, jogos e filme Blu-Ray.
Fast Shop, querida, eu não me dou bem com 3-D (dá uma lida nisso aqui. Minha experiência com Avatar não foi nem um pouco boa). Me dá arrepios, revertério e vertigem só de pensar. E você já me mandou trocentos emails com o mesmo pacote! E, se as opções entre 40 ou 46 polegadas parecem interessantes (R$ 7,2 mil ou R$ 9 mil), só parecem interessantes a outros clientes. TejE ciente que na minha casa não cabe uma TV maior que 32 polegadas. Quer me vender algo realmente bom? Faça uma promoção de 32', sem 3-D e sem nada dessas outras coisas. E de microondas pequeno. E de DVD player.
Além disso, eu sou péssima no PS. Tosca. O controle não me entende e eu não entendo ele. Adoro ver os outros matando no GTA, mas eu não sou boa aluna. No Wii eu me saio um pouco menos pior.
Capisce?
Fast Shop, querida, eu não me dou bem com 3-D (dá uma lida nisso aqui. Minha experiência com Avatar não foi nem um pouco boa). Me dá arrepios, revertério e vertigem só de pensar. E você já me mandou trocentos emails com o mesmo pacote! E, se as opções entre 40 ou 46 polegadas parecem interessantes (R$ 7,2 mil ou R$ 9 mil), só parecem interessantes a outros clientes. TejE ciente que na minha casa não cabe uma TV maior que 32 polegadas. Quer me vender algo realmente bom? Faça uma promoção de 32', sem 3-D e sem nada dessas outras coisas. E de microondas pequeno. E de DVD player.
Além disso, eu sou péssima no PS. Tosca. O controle não me entende e eu não entendo ele. Adoro ver os outros matando no GTA, mas eu não sou boa aluna. No Wii eu me saio um pouco menos pior.
Capisce?
11/11/2010
Preguiça mental
Estou passando por um momento de preguiça mental. Não consigo ser criativa, não consigo prestar atenção, por isso, nem ter concentração. Li, há alguns dias, parte do meu TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, da faculdade. É um perfil do artista plástico Newton Mesquita. Fiquei feliz em ter feito alguma coisa decente no passado, mas muito mais infeliz em não fazer mais algo tão dedicado. Assim, qualquer produção se torna medíocre.
Demorei uns dois anos e meio para decidir qual seria o tema do meu TCC. Isso atrasou minha formatura, obviamente, em dois anos e meio. Foi uma decisão árdua, já que não queria terminar a faculdade com um trabalho meia boca. E decidi. Foram meses de visita à casa dele, de entrevistas com muitos que fizeram parte de sua vida... E mais um mês, "férias", para escrever. Eu queria tanto ter tempo para fazer tudo isso de novo! Não que o TCC não tenha defeitos, mas foi feito com muito suor e com toda a minha alma.
Entrar na vida das pessoas é muito complicado, mas muito bonito. Não gosto do jornalismo que se apodera de instantes da vida sagrada de pessoas e depois sai sem dizer tchau. Gosto do que faz sentido também para a pessoa, do que a faz se sentir orgulhosa em participar do seu trabalho. Tem gente que fala que jornalista é urubu, que gosta de sangue e morte. Mas, às vezes, eu acho que está mais para sangue-suga. Você vai lá, invade a privacidade dos outros, faz seu trabalho, ganha seu dinheiro, e vai embora.
Não. Quero que a pessoa se sinta parte realmente importante do meu trabalho, como espero que Newton sinta. Não quero invadir, quero me sentir valiosa para que a pessoa fale o que quer, não o que sinta num momento de fragilidade, tristeza ou sofrimento.
Fazer perfis será uma solução? Dedicar-me a eles com devoção será a que realmente presto nessa vida? Não sei. Mas queria tentar.
Demorei uns dois anos e meio para decidir qual seria o tema do meu TCC. Isso atrasou minha formatura, obviamente, em dois anos e meio. Foi uma decisão árdua, já que não queria terminar a faculdade com um trabalho meia boca. E decidi. Foram meses de visita à casa dele, de entrevistas com muitos que fizeram parte de sua vida... E mais um mês, "férias", para escrever. Eu queria tanto ter tempo para fazer tudo isso de novo! Não que o TCC não tenha defeitos, mas foi feito com muito suor e com toda a minha alma.Entrar na vida das pessoas é muito complicado, mas muito bonito. Não gosto do jornalismo que se apodera de instantes da vida sagrada de pessoas e depois sai sem dizer tchau. Gosto do que faz sentido também para a pessoa, do que a faz se sentir orgulhosa em participar do seu trabalho. Tem gente que fala que jornalista é urubu, que gosta de sangue e morte. Mas, às vezes, eu acho que está mais para sangue-suga. Você vai lá, invade a privacidade dos outros, faz seu trabalho, ganha seu dinheiro, e vai embora.
Não. Quero que a pessoa se sinta parte realmente importante do meu trabalho, como espero que Newton sinta. Não quero invadir, quero me sentir valiosa para que a pessoa fale o que quer, não o que sinta num momento de fragilidade, tristeza ou sofrimento.
Fazer perfis será uma solução? Dedicar-me a eles com devoção será a que realmente presto nessa vida? Não sei. Mas queria tentar.
25/10/2010
São Paulo é um ovo
Não tenho passado dias de glória. Muito pelo contrário. Tudo está pesado, difícil, moroso. Nessas horas, como já disse antes, tento transferir minha energia para outro lugar, que não a poltrona de veludo da depressão. Tem dado, na medida do possível, certo. Hoje eu estava com uma preguiça terrível, vontade de ficar em casa debaixo das cobertas - minha casa estava gelada, apesar de lá fora o tempo estar ameno, quase quente.
Deixei a preguiça na geladeira e saí. Fui ao cinema com amigas queridas. Filme ótimo, ri muito, quase chorei. Dois irmãos, película argentina dirigida por Daniel Burman, é das melhores (acima, Antonio Gasalla e Graciela Borges em cena). Narra a difícil convivência entre um homem totalmente altruísta e sua irmã, esgoísta e manipuladora ao extremo. Eles não são mais jovens, passaram dos 60 (os dois atores nasceram em 1941). Muitas piadas, muita dor, muito amor. É isso que os une. E é bonito ver esse drama com tanta graça e delicadeza. Teve gente que não gostou, achou aqueles conflitos familiares um porre. Eu me diverti. Muito. E tínhamos presença ilustre na sala de exibição. Lázaro Ramos estava lá, sentado nas melhores cadeiras. Isso também foi motivo de risos e gracejos.
Depois, um jantar despreocupado, com várias ligações inusitadas. A amiga da amiga que conhece outra amiga... o namorado da primeira que trabalhou com um amigo meu da escola. São Paulo é um ovo, um ovo de pessoas conhecidas e adoráveis. É bom estar em uma cidade como essa quando a depressão te chama e você é mais forte do que ela para se abater.
Obrigada, São Paulo, por me cuidar tão bem. E por me cercar de pessoas tão bacanas.
Boa noite.
Deixei a preguiça na geladeira e saí. Fui ao cinema com amigas queridas. Filme ótimo, ri muito, quase chorei. Dois irmãos, película argentina dirigida por Daniel Burman, é das melhores (acima, Antonio Gasalla e Graciela Borges em cena). Narra a difícil convivência entre um homem totalmente altruísta e sua irmã, esgoísta e manipuladora ao extremo. Eles não são mais jovens, passaram dos 60 (os dois atores nasceram em 1941). Muitas piadas, muita dor, muito amor. É isso que os une. E é bonito ver esse drama com tanta graça e delicadeza. Teve gente que não gostou, achou aqueles conflitos familiares um porre. Eu me diverti. Muito. E tínhamos presença ilustre na sala de exibição. Lázaro Ramos estava lá, sentado nas melhores cadeiras. Isso também foi motivo de risos e gracejos.Depois, um jantar despreocupado, com várias ligações inusitadas. A amiga da amiga que conhece outra amiga... o namorado da primeira que trabalhou com um amigo meu da escola. São Paulo é um ovo, um ovo de pessoas conhecidas e adoráveis. É bom estar em uma cidade como essa quando a depressão te chama e você é mais forte do que ela para se abater.
Obrigada, São Paulo, por me cuidar tão bem. E por me cercar de pessoas tão bacanas.
Boa noite.
12/10/2010
O cravo brigou com a rosa
Hoje tentei me lembrar dessa música, mas não conseguia. Confundia a primeira com a segunda estrofe. Foi uma música muito presente na minha infância, e nem sabia o que ela significava. Agora, lendo sua letra, percebo que ela - que é tão cética - muito tem a ver comigo - na fase adulta, sempre tão pessimista e ao mesmo tempo sensível, sentimental. É uma letra despretenciosa, mas de uma verossimilhança incrível. Fica aqui um pouco da ingenuidade da infância, de quando não sabíamos o que significavam as letras, e cantávamos sem indagar. Um pouco daquilo que não podemos perder nunca.


O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada
O cravo ficou doente
E a rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
E a rosa pôs-se a chorar
11/10/2010
A palavra experenciar não foi encontrada.
Experienciar... eu sempre nutri ódio incomensurável por essa palavra. Tive a infelicidade de escutá-la pela primeira vez na faculdade, dita por um professor com vários títulos e respeitado em sua área. Pior: foi repetida diversas vezes por alguns alunos menos contestadores que eu. Olhe como um professor pode levar seus pupilos ao fracasso: se um dia eu estiver conversando com um sujeito e ele disser "experenciar", ou qualquer uma de suas conjugações, vai perder credibilidade. E isso pode ser bem ruim, principalmente se ele for uma fonte.
"Experenciar" não só é horrenda como não existe. Que tal usar "experimentar", "testar", "aproveitar", "avaliar", "praticar", "sentir"... há um sem número de palavras que podem ser usadas no lugar desta, que foi inventada por algum imbecil e caiu no uso cotidiano. O Houaiss me diz: "A palavra experenciar não foi encontrada." Eu acredito nele. Ah, você não gosta do Houaiss? Que tal o Michaelis? Ou o Aulete (de acordo com a nova ortografia)?
O inglês "try" congrega todas as possibilidades para esse verbo-fantasma, e os moradores de países de língua inglesa têm a sorte de nunca terem ouvido "experenciar" na vida. Queria ter nascido "Lóra", não "Láura".
Em tempo, retomei a minha antiga guerra contra esse verbete porque hoje escutei Paulo Bonfá, na Oi FM, se corrigindo após um ato falho - dele ou do redator da nota que ele leu. "... experenciar, aliás, essa palavra que não existe,..."
Aprendeu?
"Experenciar" não só é horrenda como não existe. Que tal usar "experimentar", "testar", "aproveitar", "avaliar", "praticar", "sentir"... há um sem número de palavras que podem ser usadas no lugar desta, que foi inventada por algum imbecil e caiu no uso cotidiano. O Houaiss me diz: "A palavra experenciar não foi encontrada." Eu acredito nele. Ah, você não gosta do Houaiss? Que tal o Michaelis? Ou o Aulete (de acordo com a nova ortografia)?
O inglês "try" congrega todas as possibilidades para esse verbo-fantasma, e os moradores de países de língua inglesa têm a sorte de nunca terem ouvido "experenciar" na vida. Queria ter nascido "Lóra", não "Láura".
Em tempo, retomei a minha antiga guerra contra esse verbete porque hoje escutei Paulo Bonfá, na Oi FM, se corrigindo após um ato falho - dele ou do redator da nota que ele leu. "... experenciar, aliás, essa palavra que não existe,..."
Aprendeu?
10/10/2010
Quando a vida começa a patinar
Eu sou "contra" a depressão. O que eu aturo, no máximo, é uma melancolia, mas a depressão não me pega. Acho que o indivíduo deprimido produz um tipo de endorfina da tristeza que o faz ficar bem. Sabe? Ele precisa daquele estado para se sentir bem. Não que a depressão seja algo bom, mas os deprimidos meio que precisam dela, se acolhem nela, se identificam com ela... Eles ficam patinando, não saem do lugar, e não conseguem sair porque essa droguinha fica falando que ali está bom, que ali é conhecido, que ali é quentinho.
Essa semana foi péssima para mim. Se caísse um raio em São Paulo, ele escolheria minha cabeça como alvo. Outro dia fui tirar dinheiro do caixa eletrônico e veio uma nota de 20 reais rasgada ao meio. "Quando o negócio está ruim, o urubu de baixo caga no de cima", diria minha mãe. Sábia.
Mas eu tenho um negócio que não me deixa ficar quieta. Eu, naturalmente, transfiro a energia negativa para outra coisa: trabalho mais, bebo mais, estudo mais, gasto mais dinheiro... Nem sempre canalizar para outra coisa traz um saldo positivo. Mas é assim que acontece. A ideia de ficar no mesmo lugar me assusta, dá medo mesmo, gera os mais deprimentes pensamentos. Para mim, o estado de não sair do lugar é depressivo, por isso eu o afasto.
Só que há momentos na vida (que frase mais horrorosa, credo! Vou começar de novo). Só que às vezes eu me sinto patinando ao mesmo tempo em que quero voar. Esmagada por um muro de concreto, ou afundando na areia movediça com uma força para sair dela maior do que eu. Estou assim. Sapateando no mesmo lugar, como fazem os deprimidos, sentados em sua poltrona de veludo do desgosto. Mas, diferente deles, eu não gosto e não quero ficar assim. Me sinto com as asas cortadas e com toda a energia para voar - toda ela sendo subjugada, reprimida.
E esses dias de frio, chuva, a tendência é só piorar. Sou como sapo ou o lagarto, pecilotérmico. Preciso do sol para me esquentar.
Essa semana foi péssima para mim. Se caísse um raio em São Paulo, ele escolheria minha cabeça como alvo. Outro dia fui tirar dinheiro do caixa eletrônico e veio uma nota de 20 reais rasgada ao meio. "Quando o negócio está ruim, o urubu de baixo caga no de cima", diria minha mãe. Sábia.
Mas eu tenho um negócio que não me deixa ficar quieta. Eu, naturalmente, transfiro a energia negativa para outra coisa: trabalho mais, bebo mais, estudo mais, gasto mais dinheiro... Nem sempre canalizar para outra coisa traz um saldo positivo. Mas é assim que acontece. A ideia de ficar no mesmo lugar me assusta, dá medo mesmo, gera os mais deprimentes pensamentos. Para mim, o estado de não sair do lugar é depressivo, por isso eu o afasto.
Só que há momentos na vida (que frase mais horrorosa, credo! Vou começar de novo). Só que às vezes eu me sinto patinando ao mesmo tempo em que quero voar. Esmagada por um muro de concreto, ou afundando na areia movediça com uma força para sair dela maior do que eu. Estou assim. Sapateando no mesmo lugar, como fazem os deprimidos, sentados em sua poltrona de veludo do desgosto. Mas, diferente deles, eu não gosto e não quero ficar assim. Me sinto com as asas cortadas e com toda a energia para voar - toda ela sendo subjugada, reprimida.
E esses dias de frio, chuva, a tendência é só piorar. Sou como sapo ou o lagarto, pecilotérmico. Preciso do sol para me esquentar.
23/09/2010
... tenha piedade de nós
Hoje aconteceu uma coisa que me deixou bem triste. Estava em um farol na Avenida Queiróz Filho com a Gastão Vidigal, onde um homem que tem alguma problema na coluna (ele vive curvado) pede dinheiro todos os dias. O sinal abre e eis que uma senhora, de cabelos loiros avolumados por laquê e óculos com detalhes dourados, avança sobre o moço, que terminava de atravessar a avenida em frente ao carro dela. Não contente em acelerar o carro, ela ficou esbravejando, batendo com as mãos sobre o volante. O estadardalhaço foi tanto que consegui ver tudo isso estando atrás dela. O moço se locomove com dificuldade, acho que isso só piorou o mau humor da perua velha.
Ele está ali todos os dias, sempre pedindo dinheiro. Nunca ameaçou ninguém, nunca o vi ser incoveniente. Tem pessoas que já o conhecem e levam roupas e comida. Ele é muito do bem, com um semblante sempre simpático, fala baixo. Nunca dei dinheiro, e ele nunca se ofendeu ou fez cara feia com a minha negação (o que, infelizmente, não é comum hoje em dia).
Depois que a mulher avançou o carro para cima dele, o olhei diretamente no rosto. Estava com cara triste, macambúzio. Não sei se por isso ou outro tropeço do destino, mas o moço não estava bem. Aquilo me atingiu ainda mais. Viver no farol pedindo dinheiro não deve ser a melhor coisa do mundo, mas ele sempre me pareceu animado. Hoje a perua loira avança contra ele e então ele entristece. Se já estava mal, só piorou.
Parabéns, senhora. Espero que, ao longo do seu caminho estressado, não faça mais vítimas da sua pressa egocêntrica.
Ele está ali todos os dias, sempre pedindo dinheiro. Nunca ameaçou ninguém, nunca o vi ser incoveniente. Tem pessoas que já o conhecem e levam roupas e comida. Ele é muito do bem, com um semblante sempre simpático, fala baixo. Nunca dei dinheiro, e ele nunca se ofendeu ou fez cara feia com a minha negação (o que, infelizmente, não é comum hoje em dia).
Depois que a mulher avançou o carro para cima dele, o olhei diretamente no rosto. Estava com cara triste, macambúzio. Não sei se por isso ou outro tropeço do destino, mas o moço não estava bem. Aquilo me atingiu ainda mais. Viver no farol pedindo dinheiro não deve ser a melhor coisa do mundo, mas ele sempre me pareceu animado. Hoje a perua loira avança contra ele e então ele entristece. Se já estava mal, só piorou.
Parabéns, senhora. Espero que, ao longo do seu caminho estressado, não faça mais vítimas da sua pressa egocêntrica.
18/09/2010
Chuvas, homens e equilíbrio
Se o tempo ousa ser esquizofrênico - num dia faz calor de verão, no outro venta, chuvisca e o frio é de arrepiar o pelo mais escondido do corpo -, por que, então, exigir que os homens sejam coerentes e equilibrados? Se a grande, e sábia, mãe natureza tem permissão para agir como um demente na ala mais perigosa do hospital psiquiátrico, por que nós, pobres coitados, formiguinhas diante do cosmos infinito, devemos nos comportar como um exército disciplinado?
Alguns dirão que o que separa a nuvem de chuva, ou uma massa de ar quente, do homem é o fato de sermos um organismo mais complexo. E, mais além, o que nos diferencia dos animais pimpolhos que se acasalam em qualquer lugar, sem nenhum pudor, é a racionalidade e, mais ainda, a escolha.
Ok, ok, mas eu quero ir além. A desestabilidade, e a incoerência, do ser humano o leva a criar, a investigar, a tentar voar, a construir, a se aventurar e, também, a fazer muita cagada. Se todos seguissem uma mesma linha ideológica, falássemos a mesma língua, fossemos todos especializados no mesmo assunto, então talvez eu nem estivesse escrevendo essas bobagens aqui. Porque não existiria o computador, e talvez nem eu existisse.
What I'm trying to say is: seres humanos equilibrados não fazem evolução, não são charmosos e não exprimem paixão. Assim como à natureza, o desequilíbrio é inerente ao ser humano. Os equilibrados são importantes para puxar os desequilibrados para o chão. Mas não são eles que levam à transformação.
Alguns dirão que o que separa a nuvem de chuva, ou uma massa de ar quente, do homem é o fato de sermos um organismo mais complexo. E, mais além, o que nos diferencia dos animais pimpolhos que se acasalam em qualquer lugar, sem nenhum pudor, é a racionalidade e, mais ainda, a escolha.
Ok, ok, mas eu quero ir além. A desestabilidade, e a incoerência, do ser humano o leva a criar, a investigar, a tentar voar, a construir, a se aventurar e, também, a fazer muita cagada. Se todos seguissem uma mesma linha ideológica, falássemos a mesma língua, fossemos todos especializados no mesmo assunto, então talvez eu nem estivesse escrevendo essas bobagens aqui. Porque não existiria o computador, e talvez nem eu existisse.
What I'm trying to say is: seres humanos equilibrados não fazem evolução, não são charmosos e não exprimem paixão. Assim como à natureza, o desequilíbrio é inerente ao ser humano. Os equilibrados são importantes para puxar os desequilibrados para o chão. Mas não são eles que levam à transformação.
11/09/2010
Receita de feijoada
Receita de feijoada: feijão preto, porco (lombo, pé, orelha, costelinha, bacon, paio e calabresa), carne seca, cebola, alho, louro, pimenta e sal a gosto. Coloque as carnes salgadas de molho durante um dia, trocando algumas vezes. Depois, dê uma aferventada nelas e, então, jogue-as na panela com feijão e louro, as macias por último. Cozinhe durante horas, checando o cozimento das carnes, e, por fim, jogue o alho e a cebola refogados. Coma com arroz branco e couve fininha e refogada. Torresmo e laranja também.

Vegetarianos, não se iludam. Feijoada sem carne jamais terá o mesmo gosto, ainda que a receita leve tofu defumado. Quem quer emagrecer é melhor se contentar com outro prato, porque a feijoada com as carnes cozidas separadas do feijão é uma lástima. Porque o bom mesmo é o gostinho (e a gordura) que o feijão pega das carnes de porco e boi. Sem isso, é feijão preto normal, também bom, mas jamais uma feijoada. Eu mesma não curto muito as carnes, mas o feijão fica simplesmente outra coisa. Diliça!
Então por que alguns lugares servem essa feijoada golpista, em que o feijão fica de fora da feijoada? Tudo bem servir tudo separado, mas eles devem ser feitos juntinhos. E aquele sabor inigualável da banha do porco que tempera os grãos pretinhos? E o caldo, com seu aroma e consistência característicos? Protesto aos estabelecimentos que não respeitam a receita tradicional! Quer comer feijão com carne seca e linguiça? Não perca tempo dizendo que é feijoada. Feijoada é G-O-R-D-U-R-A. E tenho dito.
Uma música para os amigos aprenderem a fazer feijuca direito.
Feijoada completa (Chico Buarque)
Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar
Arroz branco, farofa e a malagueta
A laranja-bahia ou da seleta
Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Depois de salgar
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão

Vegetarianos, não se iludam. Feijoada sem carne jamais terá o mesmo gosto, ainda que a receita leve tofu defumado. Quem quer emagrecer é melhor se contentar com outro prato, porque a feijoada com as carnes cozidas separadas do feijão é uma lástima. Porque o bom mesmo é o gostinho (e a gordura) que o feijão pega das carnes de porco e boi. Sem isso, é feijão preto normal, também bom, mas jamais uma feijoada. Eu mesma não curto muito as carnes, mas o feijão fica simplesmente outra coisa. Diliça!
Então por que alguns lugares servem essa feijoada golpista, em que o feijão fica de fora da feijoada? Tudo bem servir tudo separado, mas eles devem ser feitos juntinhos. E aquele sabor inigualável da banha do porco que tempera os grãos pretinhos? E o caldo, com seu aroma e consistência característicos? Protesto aos estabelecimentos que não respeitam a receita tradicional! Quer comer feijão com carne seca e linguiça? Não perca tempo dizendo que é feijoada. Feijoada é G-O-R-D-U-R-A. E tenho dito.
Uma música para os amigos aprenderem a fazer feijuca direito.
Feijoada completa (Chico Buarque)
Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar
Arroz branco, farofa e a malagueta
A laranja-bahia ou da seleta
Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Depois de salgar
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão
09/09/2010
Último dia em Buenos Aires
No último dia em que estive em Buenos Aires, queria fazer um piquenique nos parques de Palermo. Mas o dia estava gelado, ameaçando chover. Melhor não. As meninas tinham o que fazer, afinal, era segunda-feira, e eu fui conhecer a livraria El Ateneo, na Avenida Santa Fé. Depois fique perambulando, fui até ao Buenos Aires Design, na Recoleta (adooooro, comprei um minidespertador retrô para mim) e voltei para a casa das meninas.
(ah, na manhã desse dia eu comprei frutilla, o mejor, frutillones!)
Almoçamos tartas com ensalada, na casa delas, e depois fui a um supermercado ver se encontrava um vinho que um amigo havia pedido. Não encontrei e comprei os meus no chino, que era mais perto da casa das meninas e mais barato. Depois, eu e a Gabi fomos ao Malba a um debate do livro do mês. O autor do dia era o Liniers e, o livro a ser discutido, El Arte, de Juanjo Sáez. Para quem não conhece, Liniers é um quadrinhista (ou quadrinista? rs) argentino, famoso naquele país e que escreve (desenha) para a Folha. Ele escolheu o livro de um espanhol, o Sáez, que fala de arte de forma muito corrosiva, perspicaz e humorada. Tudo em quadrinhos. Amei!!! No fim, teve degustação de vinho - e, gente, o debate era de graça.
(o debate foi incrível!)
Pois bem, saímos de lá e fomos para um bar perto da casa das meninas encontrar com Vicky. Estava frio, mas o bar tem um sofá na calçada, não tinha como ficarmos em outro lugar. Foi um fim de noite lindo, ótimo! Pena que fui dormir às 2h30 e tive que acordar às 4h40 para pegar o táxi de volta para o Brasil. Agora, fico pensando, quando volto a Buenos Aires? Que saudades!! E que estadia linda!! Muito obrigada às queridas Gabi e Vicky.
(bar com o sofá dos 'Friends')
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